sexta-feira, 13 de abril de 2012



Para descrever a natureza da imagem alguém pode imediatamente
afirmar o princípio de que qualquer interpretação que identifique a imagem
com algumas características não encontradas em Deus deve ser incorreta. Por
exemplo, a imagem não pode ser o corpo do homem. Se alguém diz que a
posição ereta do corpo humano, em contraste com os animais quadrúpedes e
os répteis, é a imagem, a resposta não é meramente que os pássaros têm duas
pernas, mas antes que Gênesis não faz nenhuma referencia à imagem física.
Uma razão mais importante para negar que o corpo do homem seja a imagem
é o fato de que Deus não é e não tem um corpo.
Alguém pode ao mesmo tempo ver uma distinção mais notável entre a
criação dos animais e a criação do homem. Em Gênesis 1:11 lemos: “Produza
a terra erva verde”; uns poucos versos adiante: “E disse Deus: Produzam as
águas abundantemente”. O verso 24 adiciona: “Produza a terra alma vivente
conforme a sua espécie; gado e répteis, e bestas-feras da terra conforme a sua
espécie”. Mas Gênesis 1:26, 27 cita Deus como dizendo: “Façamos o homem
à nossa imagem”. Porque a terra produziu gado, enquanto Deus diz
“façamos”, a expressão sugere um relacionamento mais direto com Deus e o
homem do que aquele entre Deus e os animais. Os animais são deveras
bonitos, interessantes e úteis, mas o homem é superior. Como? Alguns
teólogos contemporâneos, no geral totalmente ortodoxos, insistem que o
homem é uma unidade, não uma dualidade; por conseguinte, eles concluem
que ele não é a sua alma, mas a combinação da alma e corpo.


Alma e Corpo


Antes de discutir tal visão, a pessoa deve perceber que a terminologia
do Novo Testamento, embora um desenvolvimento da do Antigo, não é
precisamente a mesma. Gênesis descreve explicitamente a alma como a
combinação do barro terreno e o sopro divino, e chama o homem de alma
vivente. A linguagem no parágrafo precedente toma alma como sendo algo
totalmente distinto do corpo, e esse é em geral o uso do Novo Testamento.
Enquanto o Antigo Testamento freqüentemente usa alma e espírito de forma
sinônima, o Novo Testamento — especialmente quando as formas adjetivas
das palavras ocorrem — impõem sobre elas uma distinção moral.
Natural
carrega uma conotação má (compare 1 Coríntios 2:14; 15:44; Judas 19). Por
outro lado, espiritual não mais denota o espírito humano, mas a influência do
Espírito Santo (compare 1 Coríntios 2:11-16 e 15:42-47; Colossenses 1:9; 1
Pedro 2:5).
Com esse pano de fundo escriturístico em mente, a pessoa pode
retornar à questão, não a de que se o homem é uma unidade, mas a de que
tipo de unidade o homem é. Um caso paralelo deve ajudar. O sal é um tipo de
unidade também, sendo a combinação química de sódio e cloro. Assim
também, o homem composto não é a alma. Aqui, certamente, a palavra
alma
não reproduz o uso de
nephesh em Gênesis 2:7. Ela reproduz o uso no Novo
Testamento e o uso comum do nosso presente século. Agora, para mostrar
que o homem em si não é a combinação — mas precisamente a alma, mente
ou espírito — alguém pode apelar para 2 Coríntios 12:2, que diz que numa
ocasião Paulo não sabia se ele estava no corpo ou fora do corpo. É totalmente
óbvio que
ele não poderia ser o corpo, pois ele, Paulo, poderia estar no corpo
ou fora dele. E se o homem
é a alma, temos uma unidade mais perfeita do que
o composto químico de sódio e cloro. Alguém pode citar também 2 Coríntios
5:1: “Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se
desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos
céus”. Similarmente Filipenses 1:21ss diz: “Porque para mim o viver é Cristo,
e o morrer é ganho... mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de
partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor...”. O corpo não é
a pessoa; ele é um lugar no qual a alma habita. A casa eterna nos céus não é a
alma, pois nossas almas não são eternas. Pela graça de Deus elas são
intermináveis, mas eternidade seria uma negação de sua criação. O que Paulo
está dizendo é que se a residência presente da alma for destruída, não
precisamos temer, pois na casa do nosso Pai há muitas moradas, e Cristo
ascendeu para prepará-las para a chegada das nossas almas. Ou para mudar a
figura, o presente corpo, como Agostinho disse, é um instrumento que a alma
usa. É a última que é a imagem e a pessoa.
Embora os dois versos citados acima venham de Paulo, Pedro ensina a
mesma doutrina quando ele diz que ele brevemente deixará este tabernáculo
terreno. O corpo tinha sido sua casa ou tenda. Ele mesmo seria em breve
movido para quartos mais elaborados.
Isso dispensa a noção de que o corpo é uma parte da imagem. A
imagem é a alma. Realmente a alma é mais do que a imagem. De todas as
passagens citadas, 1 Coríntios 11:7 — previamente usada para mostrar que o
homem é a imagem — permanece a mais forte de todas, pois ela adiciona uma
frase impressionante. Ela é tão surpreendente que nenhuma pessoa devota
ousaria inventá-la, pois ela diz que o homem não é somente a imagem de
Deus, mas que o homem é também a glória de Deus. Somente a autoridade da
revelação direta permite essa asserção. Hodge, em seu comentário sobre 1
Coríntios, oferece uma explicação dessa designação adicional, mas é suficiente
aqui simplesmente reconhecer quão enfática ela é.
Essa visão do homem parece manter a unidade da pessoa melhor do
que suas rivais; ela parece ser mais consistente e lógica; e com todo o suporte
escriturístico indicado, parecer ser impossível encontrar uma visão que seja
mais bíblica. Visto que a doutrina é tão importante com relação à soteriologia,
pode ser interessante, se não essencial, ver como a igreja terrena começou a
estudar o assunto.



 

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